Houve um ano em que, em Tondela, houve dois Judas!

Estórias do Judas em Tondela [2]

    

Num ano não datado da primeira metade do Séc. XX, aconteceu um caso de pasmar: dois Judas preparavam-se para rebentar em Tondela. Exactamente: no mesmo dia, à mesma hora!

 Ladeando, em espaços distintos de Tondela:

O Judas do Batatinha & Cª, gozando do privilégio do pedestal habitual (largo à frente da Igreja Matriz).

O Judas do António Chinchirineta (marceneiro), diferente, alternativo, mais p’rá “frentex”. Imponente, revestido de fazenda, ao contrário da usual vestimenta de papel de seda colorido (estacionado ao fundo da ladeira que junta o antigo mercado à Rua de Baixo).

 O momento do “confronto” aproximava-se. Os dois Judas iriam competir na giratória estrondosa. As duas claques afinavam os urras. Grande expectativa!

 Ao dar a meia-noite, atiçou-se o fogo aos dois figurões!

O primeiro, com rebentamento dentro dos padrões fixados.

O segundo, sem pompa e ainda menor circunstância, deu fiasco. Nem tiro, nem culatra! O Traidor era pesado. Vaidoso, mas anafado e preguiçoso, não girava no mastro. Os tiros saiam abafados e frouxos.

 Como a população reagiu a esta rivalidade de pólvora seca?

Só apreciada pelo som e formato das gargalhadas de quem conta a peripécia, mesmo que a ela não tenha assistido.

Tal como nós que, não tendo presenciado, imaginamos como teríamos reagido.

E então, se tivéssemos pertencido à claque do segundo?…

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* texto atualizado por Zrui de: “…a tradição não vai acabar…”, edição ACERT (1986) - dactilografada e policopiada a stencil. . Agradecimento a António Matos e José Lemos.