Batatinha,pioneiro do Judas em Tondela!

Estórias do Judas em Tondela [2]

             

Chamava-se ‘Batatinha’. Baixo, gordo, boina preta na cabeça e de alpercatas nos pés, sem família reconhecida. Os que o conheceram ou que dele ouviram falar, contam que não tinha profissão certa. “Era uma pessoa de biscates”. Quando os fazia, escolhia, preferencialmente, os que estavam relacionados com carpintaria ou marcenaria: o saber das mãos.

Deste tondelense, conta-se que morava na Rua de Baixo e que era uma figura típica da nossa “praça”, um carola de que todos gostavam.

Criatura engraçada e fanfarrona, não só pelo seu aspecto atarracado, mas pelo seu ar bem disposto. Dele se contam histórias. Verdadeiras ou ficcionadas? Pouco importa. O que é certo é que deixaram memórias: as suas viagens a pé até Lisboa para ver a família [a “penantes”, pois claro! No tempo do Batatinha, nem camioneta da carreira havia e comboio, era para quem tinha posses…].

Foi este saudoso tondelense que dizem ter iniciado, em Tondela, a tradição da queima do Judas. Deixou tantas saudades que, por longínquas, ainda prevalecem como se tivessem acontecido na semana passada.

Conta-se que, quando morreu, o nosso Batatinha foi sepultado envolto num lençol branco por não ter dinheiro para a urna.

Pois que viva o Batatinha, dono de uma vida que, não sendo certificada por fotos, escritos, notícias de jornal ou por história comprovada, continua perdurando numa oralidade que faz voar sua façanha de boca-em-boca.

Só o bater de corações torna plausíveis estes feitos populares. Talvez por isso, a borracha do esquecimento seja ineficaz em os apagar.

 

Saudoso tondelense ‘Batatinha’

Tua memória saberemos nós honrar

Pioneiro foste do Judas em Tondela

Para teu júbilo ele continua a rebentar

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* texto atualizado por Zrui de: “…a tradição não vai acabar…”, ed. ACERT 1986 - dactilografada e policopiada a stencil. Agradecimento a António Matos e José Lemos.